sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Huulet


     Isto é errado. Foi o primeiro pensamento que surgiu na minha mente. Porque que é que já acabou? Foi o segundo. 

     A diferença de temperaturas era gigante naquela paragem de autocarro. Todo o meu corpo estava a entrar no território da dor, a sentir os -20 graus celsius que envolviam tudo, em especial a cara que nada tinha a cobrir. Os 15 minutos que tinham passado não ajudavam, por mais camadas de roupa que tivesse, o frio já tinha feito desligar algumas partes do meu sistema nervoso. Só queria calor, o meu cérebro já não queria saber de nada mais. Mas não estava sozinho. 
     O corpo dela não estava mais quente que o meu, mas ambos sabíamos que juntos gerávamos mais calor. Parecíamos um só. Abraçados, a tremer. Riamos de parvoíces que ambos dizíamos, cientes que o frio nos tira a capacidade de pensar correctamente em coisas sérias. Meia noite, não fazíamos ideia de quanto tempo mais tínhamos de esperar, nada parecia estar a correr como o planeado. Reclamávamos do frio enquanto víamos a respiração um do outro a congelar no ar.
     Sabes aquela sensação de que uma coisa está prestes a acontecer, tu sabes que vai acontecer, mas mesmo assim quando acontece achas que foi engano? Sabíamos que o frio nos tinha levado ali, já não havia volta a dar.
     Senti o sabor a Baileys, já o esperava. Senti os dentes a chocarem, não importava. Senti saliva quente a envolver o meu lábio inferior, era bom sentir alguma coisa quente. Senti uma língua húmida a contornar a minha, correspondi. Senti os lábios suaves contra os meus, foi aqui que percebi que queria mais. Queria sentir aqueles lábios outra vez, não me lembro de alguma vez ter sentido algo assim, ao mesmo tempo parecendo tão frágeis, mas tão envolventes. Já nada parecia errado. Lábios que estavam gelados do frio exterior, rapidamente ficaram quentes e húmidos. A sofreguidão inicial foi substituída por lábios encaixados de quem quer aproveitar aquele momento por mais uns segundos, antes que o frio volte a dominar as nossas respirações quando as nossas bocas se separarem. Descolamos, encostamos as testas e rimos. Está frio, mas sinto a sua respiração quente perto de mim.

3 comentários:

Rata disse...

E pronto, aí tens uma solução para o frio mais bonita!

€%$@ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
David Pires disse...

Rata, nem sempre acontece.

€%$@, a sério? pensei que ia ter reacções contrárias. Claro que podes :)